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INTRODUÇÃO 

Sê muito bem vinda a esta Quarta-científica muito interessante!

Será que todas estas novas tecnologias prometem?

Ou prometem mais do que entregam?

No mundo do Fitness vemos novos produtos ou metodologias praticamente todos os anos. Hoje iremos falar de uma que certamente já viste nas redes sociais, que não é nada mais nada menos do que a eletroestimulação de corpo inteiro e não vamos mencionar nomes de empresas para não sermos processados 😀 

Estamos a falar daqueles treinos que são feitos com um colete que dá choques, parece agradável não?

Como é que alguém pode ter bons resultados levando choques? É isso que (ou não) vais descobrir hoje 🙂

A dor parece um conceito eficaz.

Se dói funciona…

E felizmente não sou eu que o digo… Vamos olhar para o que nos diz a evidência científica.

O QUE É ELECTROESTIMULAÇÃO (EMS)?

A electroestimulação muscular ou EMS é uma método utilizado para se conseguir contrações musculares através de impulsos elétricos. 

Estes impulsos são gerados por um aparelho e conduzidos através de eletrodos na pele ou próximo dos músculos alvo. 

O impulso mimetiza o potencial de ação, que leva o músculo a contrair. 

A EMS FUNCIONA?

Respondendo muito resumidamente sim. 

Temos evidência a comprovar que a EMS é um método válido em vários cenários:

  1. Pode ser utilizado com uma ferramenta no treino de força em indivíduos saudáveis e em atletas, visto que conseguimos adaptações neuromusculares semelhantes/complementares ao treino convencional. 
    1. No entanto a EMS deve ser utilizada em conjunto com os métodos convencionais e não como um substituto!  
  2. É também válido na reabilitação e prevenção para pacientes parcialmente ou totalmente imobilizados. A EMS ajuda na manutenção da massa muscular em períodos prolongados de inatividade (ex: pós-operatórios).
  3. Uma outra possibilidade é ser utilizado como uma ferramenta de avaliação da função neural e/ou muscular. 

Isto são tudo pontos positivos, no entanto é relativo à eletroestimulação localizada e não de corpo inteiro (colete). 

A grande maioria dos estudos é feita com a localizada e não podemos assumir que a de corpo inteiro vai ter efeitos semelhantes ou superiores. 

Isto é um erro lógico e os promotores deste método aproveitam-se dessa falácia. 

Fazer esta afirmação “A eletroestimulação localizada funciona e tem evidência, logo a eletroestimulação de corpo inteiro tem os mesmo efeitos”, não é diferente do que fazer este raciocínio: “Esta maçã é vermelha, logo todas as maçãs são vermelhas”. 

Os métodos de treino são diferentes e por essa razão não podemos retirar as mesmas conclusões! 

25MIN MÁGICOS (à benfica lol)

Adoro quando são feitas afirmações sem qualquer tipo de evidência. 

Responde honestamente a esta questão, se eu te dizer que 25min deste treino de eletroestimulação equivalem a 90min de treino convencional acreditarias? 

Espero que a resposta seja não, porque não há mesmo qualquer fundamentação científica para tal. 

Eu gostava mesmo muito que fosse verdade, porque pouparia imenso tempo xD 

Infelizmente vais encontrar afirmações semelhantes a esta nos sites dos vários promotores, sem qualquer suporte científico. 

Não podemos tirar grandes conclusões de estudos em que o grupo de controlo não treina, ou seja, se formos comparar uma abordagem em que um grupo treina e o outro não faz literalmente nada é óbvio que vão sempre haver melhorias. 

Vários estudos da EMS de corpo inteiro são conduzidos desta forma, que não permite uma comparação com métodos convencionais. Só consegui encontrar um estudo (1) em que os dois grupos treinam e mesmo nesse, o treino convencional foi feito sob a forma de HIT (treino de alta intensidade), que é um método de treino onde é feita apenas uma série até falha muscular. 

Para ser honesto isto não é propriamente um método de treino convencional… 

O grupo que fez EMS treinou 1,5x/sem e o grupo de HIT 2,2x/sem, que não é propriamente o mesmo de 25mn relativamente a 90mn. 

Quando analisamos os resultados, apesar de não ter sido considerado estatisticamente significativo, o grupo HIT teve ganhos superiores de massa isenta de gordura (855g vs 625g) e de força no Leg Press (408kg vs 264kg). 

625g não são resultados surpreendentes em 16 semanas e temos vários estudos com resultados superiores com métodos convencionais.. 

São necessários mais estudos válidos, com bons grupos de controlo e métodos de treino realmente convencionais para fazer afirmações tão fortes como as que pregam. 

Tenho pena de ser o mensageiro, mas fazer 25mn de Zumba com eletroestimulação não vai ser o equivalente, nem sequer, a 60mn de um Treino de Força no ginásio…

P.S. A gordura também não morre eletrocutada, por isso acrescenta zero na perda de massa gorda.

RISCOS DA EMS

Existem alguns potenciais riscos na utilização da eletroestimulação, se não houver um controlo adequado. 

As dores e danos musculares causados pela corrente elétrica, principalmente nas zonas estimuladas estão associadas a um grande risco de overreaching/overtraining periférico. 

Há uma resposta aguda e crônica muito variada entre indivíduos, mas que deve ser considerada (2). 

O investigador Nicola Maffiuletti sugere que deve haver uma regulamentação para este tipo de treino (3) e apresentou um caso em que um praticante de 20 anos sofreu de rabdomiólise após um treino de eletroestimulação de corpo inteiro. 

Para ser justo é algo que pode acontecer com qualquer tipo de treino e há vários fatores externos que podem levar a uma rabdomiólise, tais como a nutrição e níveis de fadiga anteriores ao treino. 

Pessoalmente não sou um grande fã desta forma de treino, porque numa contração normal existem mecanismos internos que interrompem o exercício quando algo não está bem. 

Mas quando a contração é gerada por impulsos externos não existe este controlo, podendo levar a que um estímulo seja lesivo. 

Vamos imaginar um caso prático:

se estás a treinar normalmente e sentes alguma dor simplesmente páras a execução. No treino de EMS, até alguém desligar o aparelho contínuas a contrair involuntariamente mesmo que a dor esteja presente.

CONCLUSÃO

A principal mensagem que quero passar hoje é a de alguém que conheço.

Não treinava e descobriu o treino de electroestimulação.

Estava sem norte, não sabia que treino podia fazer e como o fazer (em casa por exemplo)…

Então apostou na eletroestimulação e começou a ir consistentemente 2x por semana!

Um mês depois os resultados eram incríveis… Por isso se tens tido dificuldades em treinar aposto que a esperança cresce em ti.

A verdade é que os resultados foram bons, mas se tivesse treinado normalmente, sem ser eletroestimulação, eram iguais (no mínimo) e seria bem mais barato.

Por isso a moral da história? 

Apesar de cientificamente não se comprovar benefícios neste tipo de treino com colete, se for usado para criar o bom hábito de te exercitares pode ser uma ferramenta super útil! (apesar dos riscos associados)

Neste momento com a evidência que temos disponível não podemos afirmar que a EMS de corpo inteiro é uma forma de treino superior aos métodos convencionais. 

Se o objetivo for ganhar força ou ganhar massa muscular, o ideal será optar pelos métodos de treino que sabemos que realmente funcionam e que têm suporte científico. 

Por outro lado se o objetivo for reabilitação, o melhor será ir a um Médico e/ou Fisioterapeuta e não se deixarem levar por Marketing. 

Só por um treino ser difícil ou doloroso, que é o que acontece quando estão a levar choques constantemente, não o torna melhor!

Um abraço do vosso Coach,

Mário

BIBLIOGRAFIA

  1. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4789460/
  2. Strength and Conditioning: Biological Principles and Practical Applications 1st Edition by Marco Cardinale, Robert Newton, Kazunori Nosaka (2011)
  3. https://www.bmj.com/content/352/bmj.i1693.full
  4. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21993042
  5. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21866361

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